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01 dezembro, 2007

Let's Talk About Love: A Journey to the End of Taste

Da última fornada de livros da série 33 1/3, um volume dedicado ao álbum Let's Talk About Love de Céline Dion é certamente uma escolha intrigante. O próprio autor do livro, Carl Wilson, admite que não é sequer simpatizante da música da canadiana. Transcreve até uma citação de Simon Frith, fã de Céline Dion, que a descreve nestes termos: "Celine Dion is probably the most loathed superstar I can remember, at least by everyone I know, not just critics but even my mother-in-law who usually shares my 'bad' musical taste".

O abismo entre uma audiência que não encontra valor algum na sua música e uma audiência que fez dela a mulher que mais discos vendeu no mundo é o ponto de partida para o estudo sobre gostos a que Carl Wilson se propõe no livro. Pretendendo investigar o modo como são determinadas as estéticas pessoais, percebeu que uma forma boa de analisar o assunto seria através de uma artista com a qual não possui qualquer afinidade. Além de olhar para o álbum em si, o livro passa também pela carreira de Céline Dion, as suas influências, os géneros em que se moveu, o tipo de sensibilidade que exprime e pelas questões do "bom" e "mau" gosto.


A pertinência de dedicar-se algum tempo a esta matéria (e em particular a Céline Dion) é explicada pelo autor mais ou menos nestes parâmetros:

1. Com a Internet o modo de ouvir música mudou. Em vez de audições "intensivas" de álbuns passa-se para uma lógica mais quantitativa, esquizofrénica e superficial. Qualquer tipo de música tem a sua oportunidade para brilhar - incluindo a pop mais leviana e efémera.

2. Em finais da década de 1990, Timbaland e os seus colegas começaram a fazer das tabelas de vendas o seu recreio, obrigando a novos impulsos de engenho da parte dos adversários e criando um novo modo de encarar a música pop. Os críticos começaram a reparar numa criatividade que afinal até poderia aparecer de qualquer lado, em qualquer género musical.

3. Com isto multiplicou-se o que Carl Wilson chama de "ciclos de revisionismo". Géneros como o metal ou o disco-sound, artistas como os ABBA, foram olhados de outra forma, proclamando-se o seu génio quando outrora eram desprezados em certos circuitos.

4. Por consequência, a irrelevância do "guilty pleasure": não há motivo para se sentir culpa ou vergonha do que se gosta. Por outro lado, se até algo como a Céline Dion poderá eventualmente ser redimido, poderemos cair num "covil relativista".

5. Toda a gente tem uma biografia de gostos, uma narrativa de preferências mutáveis que podem ser moldadas nomeadamente através de experiências sociais ou alteradas com informação musical (Carl Wilson aponta o exemplo dos samples - a partir do hip-hop descobriu que gostava de disco-sound, etc.). As rejeições iniciais acarretam muitas vezes uma ignorância de modos de vida e de comunidades, preconceitos com os quais o autor não quis viver. Descreve a situação como uma epifania, uma questão ética que pode transformar-se em prazer musical.


Não sei que resultado terá advido da escrita do livro ou que juízo terá formado de Céline Dion. Celine Dion's Let's Talk About Love: A Journey to the End of Taste é lançado a 15 de Dezembro (EUA). Entretanto, numa entrevista recente ao site da Exclaim!, Carl Wilson reflecte sobre a obra:
What I came to feel as I thought about it and the ways in which those kinds of cultural self-categorisations separate us from people who are unlike us and don’t share that language is that, that’s no longer so interesting for me. The culture and the art still is interesting to me but what that implies about me is not so interesting to me any more. As I get older, I feel like what I’m actually interested in is finding out about people’s experiences that are unlike mine. By having so much at stake in the question of taste, that forms a barrier between yourself and those people because the more unalike your experiences are, the more likely that your tastes are very different. If you feel like that prevents us from having anything in common to talk about, then that’s a way of segregating yourself in a certain way. So, I really felt like I wanted to come out of the writing experience changed to some degree. Whatever my conclusions about Celine Dion were, I wanted to think about the ways in which I think and talk about culture and see if I could find different ways of doing that than I had before.